Doutoranda e Mestre em Psicologia pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e membro do Laboratório de Análise e Prevenção de Violência (LAPREV-UFSCAR).
Docente vinculado ao Departamento de Psicologia (DPsi) e ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos (PPGPsi-UFSCar). Pesquisador do Laboratório de Análise e Prevenção da Violência (LAPREV). Bolsista de Produtividade do CNPq e Presidente da Associação Brasileira de Psicologia do Desenvolvimento.
A crise provocada pela Covid-19 revelou-se uma tragédia de proporções incomensuráveis, afetando não apenas as esferas sociais e econômicas, mas também as dimensões de saúde pública, como o aumento da violência contra as mulheres. Os impactos desse evento sanitário na vida da população foram diretos e agravaram problemáticas já existentes, como os casos de feminicídio. Buscou-se, no presente artigo, analisar e descrever o perfil sociodemográfico dos autores de feminicídios no estado de São Paulo durante a pandemia e as características das ocorrências. A metodologia utilizada foi o estudo quantitativo e transversal, fundamentado na análise documental. Com base nos registros de ocorrências, no período de 11 de março de 2020 a 5 de maio de 2023, foram identificados 547 autores de feminicídio, sendo 6 indivíduos não reconhecidos. Entre aqueles que estão respondendo pelo crime, a maioria era composta por adultos, negros, com baixo nível de escolaridade e vínculos afetivos e sociais com as vítimas. As mortes apresentaram um aumento nos meses de março, abril e dezembro em todos os anos, e ocorreram, predominantemente, à noite e nos finais de semana. Os principais meios utilizados para a prática do feminicídio foram objetos domésticos e armas de fogo. Considera-se, a partir dos achados deste artigo, que deve haver investimentos em políticas preventivas, estratégias coletivas eficazes para reduzir a violência contra mulheres e maior articulação entre as políticas educação, saúde e justiça, com um diálogo interdisciplinar entre diferentes áreas do conhecimento que possam enfrentar os indicadores estarrecedores de feminicídio no estado de São Paulo.
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